Janeiro, na varanda. Vicente bebe café com açúcar demais e olha pra mim. Fala que nunca me deu nada, então vai procurar alguma coisa. E abre a carteira. Vicente sorri, sempre iluminado. Tira da carteira um cordão de contas azuis escuro e claro. A cada dez azuis escuras, três claras, pela minha conta. Vira pra mim e fala:
- Isso aqui, eu achei lá em Minas.
E me estica o cordão.
- Vou usar como pulseira.
Vicente, ele próprio, deu as duas voltas necessárias e trancou nosso azul em volta do meu pulso direito. Coube perfeitamente. Nem mais nem menos, como Vicente pra mim. Tentei beber um pouco de café enquanto tentava desviar minha atenção do meu mais novo e especial presente. Açúcar demais, azul demais.
Por dias, olhei pro azul de Vicente, agora evidente em mim, e o identifiquei como característica natural de minha pele. Era a pulseira mais bonita e, melhor, tinha vindo dele. Ele cabia em mim. Não tirei para tomar banho, não tirei para combinar com outras roupas, não tirei para dar outra cara ao braço. A pulseira azul de Vicente era tão parte de mim quanto meus olhos castanhos. E, então, primeiro de maio, Vicente foi embora. Não deixou telefone, não tinha endereço. Não deixou recado e, ouvi dizer, não sorriu. Meu riso apagou e a pulseira azul encolheu.
Os meses passaram. Olhava para meu braço como quem olha para a televisão. Assistindo a pulseira se encolher, sem nada poder fazer para impedir. Ela não podia desaparecer. Com ela, Vicente ficaria comigo para sempre. E era assim que deveria ser. Ele lá, sem mim, mas eu aqui, com ele. Mas outro janeiro passou. Vicente não sorriu e a pulseira desbotou.
Agosto e minha mão direita já tinha cor diferente do resto do braço. A pulseira azul se agarrou forte a mim; ela também não queria se separar. Seria doloroso para as duas perder Vicente naquela união. Éramos tão inseparáveis que o azul da pulseira começou a se confundir com o roxo de minha pele clara. Novembro e o roxo ficou vermelho. O sangue manchou o azul e o rosto de Vicente embaçou em minha lembrança.
Meus dedos que antes testaram a quentura do café açucarado não tinham mais movimento. Minha mão branca destoava de meu punho feito de hematoma, dividido em pequenas contas azuis. Não desisti de manter Vicente. Virei canhota. Passei a andar com os pés. Vicente não apareceu. A luz apagada. Janeiro seguinte, minha mão caiu. Se tivesse usado como cordão, teria sido a cabeça. Vicente nunca mais sorriu iluminado. A pulseira, no outro dia, arrebentou no ponto de ônibus. Continhas azuis escuro e claro correram chorando pelo asfalto.
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Ai! Tipo, ai! Só isso, sabe?
ResponderExcluirBonito, isso que escreveu.
ResponderExcluirEu tive um Vicente, só que ele levou com ele a unica evidencia do nosso encontro e relacionamento. Foi mais dificil pra mim seguir sem nenhuma evidencia dele. Juro que as vezes ainda acho que o imaginei.
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