sobrou
de você aqui
em casa um
óculos
de sol de camelô
em cima
do meu piano
na vista
dos outros
sobrou palavra
sua
a cada clique
uma nova
música
sua
sinto orgulho
de sentir
saudade
sua
terça-feira, 20 de outubro de 2009
terça-feira, 13 de outubro de 2009
Inflamável
Mônica acordava todo dia às 5:50h. Andava até a cozinha quase sonâmbula, enchia dois copos e meio d'água, punha pra ferver e, mais três pás de pó de café, e voilà, Mônica bebia tudo que cabia na garrafa térmica. Às vezes comia pão 267 grãos, às vezes se enchia de pão sírio. Botava tudo pra dentro enchendo o café de adoçante. O filho não acordava antes das 7h e, sempre, todos os dias, às 7:10h, o Plus Vita e o Toddy do Juninho lhe aguardavam sobre a mesa. Mônica se despedia de Juninho no portão, a escola era logo ali embaixo. Mônica parou de levá-lo à escola assim que fez dezessete anos. Parece que os amiguinhos implicavam. Mônica não gostou. Tiveram que mandar a psicóloga ir conversar com ela, explicar por que era esquisito que ela ainda o acompanhasse até a escola.
Mônica tinha sua rotina muito bem organizada. A rotina era a chave de sua felicidade. Até o dia do caminhão. Mônica sentiu falta. Juninho demorava demais pra voltar da escola. Mônica mudou pra sempre no dia do caminhão. Todo mundo viu, todo mundo entendeu por que, mas ninguém soube no que ajudar. Mônica foi atrás de Juninho. Já estava três minutos atrasado e isso não era normal. Desceu a rua, parou na porta da escola. Juninho estava na porta, conversava com uma amiguinha. Não deu tempo de suspirar de alívio. No segundo seguinte, Mônica viu o caminhão, com o aviso "gás inflamável". Ninguém soube na hora como aconteceu, mas viu no jornal, no dia seguinte, que a menina morreu também.
A mãe da menina tentou se aproximar de Mônica. Era a única que entendia a perda. Mas Mônica não quis ouvir, estava ocupada procurando marcas de nascença, singularidades que identificassem a mancha preta como seu filho. A menina era Ana Karla, com K, 15 anos, a quem todos os amiguinhos se referiram como "namorada do Júnior" quando apareceram no jornal pra falar de como a tragédia havia afetado suas vidas, de como Karlinha e Júnior eram maravilhosos amigos, de como nunca os esqueceriam. Tinha até uns adolescentes machucados da explosão, mas ninguém morto, todos vivos, dando depoimento de como a morte de seus amigos mudava a vida de cada um deles. De como a morte muda tudo na vida. Mas a vida de ninguém mudou, só a de Mônica.
Juninho, lá do céu, mandava recados para Mônica todos os dias. Mônica não percebia que o feijão queimado era ele, que o relógio parado era ele, que o copo quebrado era ele. Mônica se achava desastrada e esquecida, agora que Juninho não estava mais na casa, lhe dando centro. Mônica, de noite, perdia cartas pra vizinha. Jogava buraco como quem joga bola, não pensava mais, fazia tudo num impulso irreconhecível. Juninho tentava ajudar, mas também estava gostando de passar uns momentos sozinhos com Ana Karla, 15. Passavam dia e noite transando em nuvens, a mãe de Ana Karla indo à igreja, Mônica errando a mão no adoçante, na medida d'água, esquecendo quantas pás de pó de café já tinham sido postas.
Mônica passou dias, não se sabe quantos, errando aqui e ali. É por isso que não conseguiram chutar se foi acidente ou não foi. Mas não foi, não, e Juninho teria contado pros outros se estivesse vivo quando perguntaram. Mônica percebeu que ainda tinha controle de si e do que acontecia em sua vida. Pegou uma garrafa de álcool, tacou no corpo todo, nos cabelos, na cara, entre os dedos. Certificou-se de que estava completamente coberta por álcool. Inflamável, riscou o fósforo sobre seu corpo e esvaiu em chamas no chão da cozinha. A vizinha apareceu no Fantástico, contando a história completa, dizendo como dói a perda de uma família maravilhosa, tão ativa e presente na vizinhança. A dor inteira de Mônica foi contada nos jornais, mas as palavras estavam todas trocadas, a sintaxe mal formada, os pontos mal colocados. Mônica não estava lá pra consertar, então, a história ficou mal contada mesmo. Uma desorganização que Mônica, viva, jamais permitiria.
Mônica tinha sua rotina muito bem organizada. A rotina era a chave de sua felicidade. Até o dia do caminhão. Mônica sentiu falta. Juninho demorava demais pra voltar da escola. Mônica mudou pra sempre no dia do caminhão. Todo mundo viu, todo mundo entendeu por que, mas ninguém soube no que ajudar. Mônica foi atrás de Juninho. Já estava três minutos atrasado e isso não era normal. Desceu a rua, parou na porta da escola. Juninho estava na porta, conversava com uma amiguinha. Não deu tempo de suspirar de alívio. No segundo seguinte, Mônica viu o caminhão, com o aviso "gás inflamável". Ninguém soube na hora como aconteceu, mas viu no jornal, no dia seguinte, que a menina morreu também.
A mãe da menina tentou se aproximar de Mônica. Era a única que entendia a perda. Mas Mônica não quis ouvir, estava ocupada procurando marcas de nascença, singularidades que identificassem a mancha preta como seu filho. A menina era Ana Karla, com K, 15 anos, a quem todos os amiguinhos se referiram como "namorada do Júnior" quando apareceram no jornal pra falar de como a tragédia havia afetado suas vidas, de como Karlinha e Júnior eram maravilhosos amigos, de como nunca os esqueceriam. Tinha até uns adolescentes machucados da explosão, mas ninguém morto, todos vivos, dando depoimento de como a morte de seus amigos mudava a vida de cada um deles. De como a morte muda tudo na vida. Mas a vida de ninguém mudou, só a de Mônica.
Juninho, lá do céu, mandava recados para Mônica todos os dias. Mônica não percebia que o feijão queimado era ele, que o relógio parado era ele, que o copo quebrado era ele. Mônica se achava desastrada e esquecida, agora que Juninho não estava mais na casa, lhe dando centro. Mônica, de noite, perdia cartas pra vizinha. Jogava buraco como quem joga bola, não pensava mais, fazia tudo num impulso irreconhecível. Juninho tentava ajudar, mas também estava gostando de passar uns momentos sozinhos com Ana Karla, 15. Passavam dia e noite transando em nuvens, a mãe de Ana Karla indo à igreja, Mônica errando a mão no adoçante, na medida d'água, esquecendo quantas pás de pó de café já tinham sido postas.
Mônica passou dias, não se sabe quantos, errando aqui e ali. É por isso que não conseguiram chutar se foi acidente ou não foi. Mas não foi, não, e Juninho teria contado pros outros se estivesse vivo quando perguntaram. Mônica percebeu que ainda tinha controle de si e do que acontecia em sua vida. Pegou uma garrafa de álcool, tacou no corpo todo, nos cabelos, na cara, entre os dedos. Certificou-se de que estava completamente coberta por álcool. Inflamável, riscou o fósforo sobre seu corpo e esvaiu em chamas no chão da cozinha. A vizinha apareceu no Fantástico, contando a história completa, dizendo como dói a perda de uma família maravilhosa, tão ativa e presente na vizinhança. A dor inteira de Mônica foi contada nos jornais, mas as palavras estavam todas trocadas, a sintaxe mal formada, os pontos mal colocados. Mônica não estava lá pra consertar, então, a história ficou mal contada mesmo. Uma desorganização que Mônica, viva, jamais permitiria.
terça-feira, 6 de outubro de 2009
Rio
Você pediu mais duas doses de mistério antes de ir embora. Senti que perdi o início do filme e que foi por isso que a piada do final não fez sentido. Só depois, mais tarde, depois de muito, muito tempo, te olhei direito na minha lembrança e vi que sentido é algo que nunca foi fácil de encontrar em você. Vi também que você gostava disso, da brincadeira de pique-pega que resultava da falta de coerência.
Desde que você se foi, os homens que não conheço, que todo dia passam por mim de terno e sapato indo trabalhar, passaram a usar chinelos e camisas de malha desbotadas; mudaram de estatura, fisionomia e cor de cabelo. Os homens que não conheço passaram a me olhar de cima como você me olhava e a ter seu tom de castanho indefinível nos olhos. Os homens que não conheço agora têm a boca aberta e as mãos frias; dizem boa tarde no seu tom de voz. Um mundo de eternidade impossível com você dentro dos homens que não conheço.
Você se foi e saiu mudando tudo pelo caminho. Reformou a estação do metrô do Largo do Machado; não tem mais traço da gente lá. Todos os desenhos que fiz com o indicador se desfizeram em pó. Fez também mais uma estação em Copacabana; agora não se senta mais na Siqueira Campos na hora do rush. Na chuva, na minha contramão, você fez uma rua nova em Botafogo. Agora tem que atravessar. Parece que tudo ficou mais longe. Aquele lugar que só cobrava a entrada e o consumo na saída, agora já cobra a comanda em branco na entrada e, na saída, tem que passar lá de novo pra pagar o consumo, carimbar, destacar o comprovante. Eu vivo num Rio mais burocrático e cinza desde que você se foi.
As Olimpíadas vão ser aqui em casa desde que você se foi. E, pelo menos duas vezes por semana, almoço na Rua do Rosário e saio andando manca rumo a Ouvidor, sabendo que esse algo que tanto me faz falta, anda ali pela Rio Branco, procurando em prédios no centro da cidade o que nunca encontrou na minha casa de campo.
___________________________________________________________
Algo me diz que ainda farei muitas alterações nesse texto e certamente no título. Fica classificado aqui como rascunho, só porque faz tempo.
Desde que você se foi, os homens que não conheço, que todo dia passam por mim de terno e sapato indo trabalhar, passaram a usar chinelos e camisas de malha desbotadas; mudaram de estatura, fisionomia e cor de cabelo. Os homens que não conheço passaram a me olhar de cima como você me olhava e a ter seu tom de castanho indefinível nos olhos. Os homens que não conheço agora têm a boca aberta e as mãos frias; dizem boa tarde no seu tom de voz. Um mundo de eternidade impossível com você dentro dos homens que não conheço.
Você se foi e saiu mudando tudo pelo caminho. Reformou a estação do metrô do Largo do Machado; não tem mais traço da gente lá. Todos os desenhos que fiz com o indicador se desfizeram em pó. Fez também mais uma estação em Copacabana; agora não se senta mais na Siqueira Campos na hora do rush. Na chuva, na minha contramão, você fez uma rua nova em Botafogo. Agora tem que atravessar. Parece que tudo ficou mais longe. Aquele lugar que só cobrava a entrada e o consumo na saída, agora já cobra a comanda em branco na entrada e, na saída, tem que passar lá de novo pra pagar o consumo, carimbar, destacar o comprovante. Eu vivo num Rio mais burocrático e cinza desde que você se foi.
As Olimpíadas vão ser aqui em casa desde que você se foi. E, pelo menos duas vezes por semana, almoço na Rua do Rosário e saio andando manca rumo a Ouvidor, sabendo que esse algo que tanto me faz falta, anda ali pela Rio Branco, procurando em prédios no centro da cidade o que nunca encontrou na minha casa de campo.
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Algo me diz que ainda farei muitas alterações nesse texto e certamente no título. Fica classificado aqui como rascunho, só porque faz tempo.
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
Limpo
Se não foi hipocrisia,
desconsidero
a falta de
consideração
Peça desculpas, me force a ouvir
coisas lindas
da sua boca limpa
Mas não me explica:
me deixa aqui
pensando o pior.
desconsidero
a falta de
consideração
Peça desculpas, me force a ouvir
coisas lindas
da sua boca limpa
Mas não me explica:
me deixa aqui
pensando o pior.
sexta-feira, 31 de julho de 2009
Dia seguinte
O verde do metrô de sábado de manhã
Flashes das horas escuras anteriores
Do chão da cozinha,
das árvores caídas
pela chuva que nos contaram,
pelo vendaval que não vimos
Dos meus pés de plataforma, dos seus pés descalços
(Eu ainda olhava pra cima)
Quase durmo num dos lugares vazios a minha volta
Com sorriso meio melancólico,
procuro outro sentimento pra compartilhar
Mas de nada adianta
Ninguém mais viu a expectativa frustrada do táxi que não dividimos.
Flashes das horas escuras anteriores
Do chão da cozinha,
das árvores caídas
pela chuva que nos contaram,
pelo vendaval que não vimos
Dos meus pés de plataforma, dos seus pés descalços
(Eu ainda olhava pra cima)
Quase durmo num dos lugares vazios a minha volta
Com sorriso meio melancólico,
procuro outro sentimento pra compartilhar
Mas de nada adianta
Ninguém mais viu a expectativa frustrada do táxi que não dividimos.
sexta-feira, 10 de julho de 2009
Sétimo
Desisto, então, enfim.
Entrego com laço de fita
meu querer ao acaso
Espero e torço, sentada,
por um dia ser um
acerto aleatório
Não empurro nem puxo
a sincronicidade
Faço dela Deus sem fé
Observo a inércia
sem perguntar que horas são
- ou deveriam ser -
porque falhou, o tempo.
Palavras, sensações e momentos
em perfeita sintonia
Ainda assim,
o tempo me disse não
ao pé do ouvido
sem sequer encostar em mim.
__________________________________________________________
*O título veio da história de Eros e Psiquê. Ao perder Eros, Psiquê recebe sete mandamentos de Afrodite, dentre os quais, o sétimo, é desistir.
Entrego com laço de fita
meu querer ao acaso
Espero e torço, sentada,
por um dia ser um
acerto aleatório
Não empurro nem puxo
a sincronicidade
Faço dela Deus sem fé
Observo a inércia
sem perguntar que horas são
- ou deveriam ser -
porque falhou, o tempo.
Palavras, sensações e momentos
em perfeita sintonia
Ainda assim,
o tempo me disse não
ao pé do ouvido
sem sequer encostar em mim.
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*O título veio da história de Eros e Psiquê. Ao perder Eros, Psiquê recebe sete mandamentos de Afrodite, dentre os quais, o sétimo, é desistir.
terça-feira, 30 de junho de 2009
Declaração de amor
Foi melhor assim. Agora consigo dormir em paz. Pela primeira vez, desde os dez anos.
Lembro-me perfeitamente da primeira vez em que a vi, no início dos anos 70. Ela tinha onze anos e tinha mais corpo do que as outras meninas. Passava todos os dias em frente à minha casa, a caminho da escola. Tornou-se brincadeira de menino: eu sabia seus horários e ficava na janela esperando o momento de vê-la passar. Naquela época, era só atração.
Em poucos meses, já a via sempre duas vezes por semana no curso. Fiz aulas extras para avançar período e ficar na turma dela. Nunca conversávamos, mas às vezes, nossos olhares se cruzavam e iluminavam meu dia. Eu tinha doze anos e ela quatorze. Pensava tanto nela que quase precisei voltar para o período anterior. A atração já era paixão.
Escrevi meu primeiro poema de amor naquele ano. Ficou melhor do que qualquer outro que já li. Mas não tive coragem de enviar. Naquele dia, ela passou por mim e nem me cumprimentou. Mas não por ser convencida. Ela realmente não sabia quem eu era.
Passaram-se dois anos. Fiz minha mãe me transferir para o colégio dela. Para o clube, para a academia e para a igreja também. Sempre que ela chegava perto de mim, eu gelava. Mas a observava aonde quer que ela fosse. A paixão já era mania.
Eu a seguia a todos os lugares. Acabei descobrindo que ela fazia aulas de teatro e que seu sonho era ser atriz. Também descobri que ela tinha um namorado. Mas a isso eu não suportava assistir.
Ao mesmo tempo, descobri minha paixão por fotografias. Ia sempre à janela do quarto dela e tirava fotos. Em casa, em todas as madrugadas, eu a desenhava. Às vezes, ficava horas só olhando para ela. O cabelo loiro, os olhos azuis... o corpo perfeito. A mania já era amor.
No ano seguinte, aos meus quinze anos, eu já não saía com os colegas. Não conversava, não jogava xadrez e não desenhava nada que não fosse ela. Também não namorava outras garotas. Eu vivia em função dela. O amor já era obsessão.
Um pouco antes do aniversário de dezessete anos, descobri que o pai dela era alcoólatra e batia nela e em sua mãe. Foi o pior dia da minha vida. Senti muito ódio e quis matar o desgraçado. Cheguei a arranjar uma arma, mas seus pais logo se divorciaram.
Também tive um dos melhores momentos da minha vida nesse ano. Ela me pediu uma caneta emprestada e me chamou pelo nome. Ela sabia meu nome! Ela sabia quem eu era! Eu não conseguia acreditar.
O tempo foi passando e começou a ser incômodo para mim esse meu sentimento por ela. Eu precisava seguir em frente e viver minha vida. Cheguei a sair com algumas garotas. Todas parecidas com ela de alguma forma; um trejeito, um sorriso de lado, um cabelo repartido ao meio. Mas eu as usava e jogava fora quando elas faziam algo diferente e eu ficava decepcionado. Não era ela. Entrei em depressão. Anos e anos e ela não saía da minha cabeça. Aquilo me consumia. Mal conseguia dormir e, nas poucas vezes que conseguia, era com ela que eu sonhava. Abrir os olhos de manhã era pensar nela. As manhãs eram adaptação. As tardes, solidão. As noites, ansiedade. As madrugadas, insônia. Essa era minha rotina diária.
Enquanto eu me formava na faculdade de letras, ela realizava seu sonho, estrelando como protagonista de uma novela de televisão. Eu assistia todo dia. Faltava ao trabalho para vê-la e gravava todas as cenas em que ela aparecia. Eu era, com certeza, seu maior fã.
Ela tinha um namorado na novela, um ator conhecido. Doeu quando vi uma foto dos dois juntos numa revista. Lá dizia que eles não estavam juntos só na novela. Agüentei firme por meses. Então, ela ficou grávida.
Foi aí que decidi fazer uma declaração de amor. Entrei na casa dela escondido. Ela estava no quarto decorando as falas. Parei em frente à porta aberta. Tão linda... Fiquei só olhando.
Ela me viu e se assustou. Acalmei-a e disse:
- Lembra de mim?
- Vinicius? – Ela perguntou, surpresa.
Sorri de satisfação. Ela lembrava de mim. Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, peguei o papel dobrado no meu bolso e disse a ela:
"Te quero e te desejo desde
a primeira vez que te vi
Era fascinação, virou paixão,
E, agora, obsessão.
Não consegui dizer nada antes,
mas não por minha timidez
É porque não existem palavras
lindas ao ponto de expressar
tudo que sinto por você.
Então, esse é o fim.
Em que te digo o que qualquer pessoa
que sentisse um terço do que eu sinto diria:
Eu te amo."
Ela sorria, lisonjeada, e me olhava com ternura. Cheguei mais perto dela e passei a mão em seu cabelo. Ela ainda sorria sem dizer nada; ela era a perfeição. Ela me beijou suave no rosto, com facilidade, e, nesse momento, tive certeza do que fazer para viver de verdade.
Peguei a arma que havia comprado há anos e fiz a melhor coisa que já fiz em toda a minha vida. Naquela noite, matei Letícia.
__________________________________________________________
*Esse texto foi escrito em 2001. Fiz alterações meramente estéticas antes de postá-lo.
Lembro-me perfeitamente da primeira vez em que a vi, no início dos anos 70. Ela tinha onze anos e tinha mais corpo do que as outras meninas. Passava todos os dias em frente à minha casa, a caminho da escola. Tornou-se brincadeira de menino: eu sabia seus horários e ficava na janela esperando o momento de vê-la passar. Naquela época, era só atração.
Em poucos meses, já a via sempre duas vezes por semana no curso. Fiz aulas extras para avançar período e ficar na turma dela. Nunca conversávamos, mas às vezes, nossos olhares se cruzavam e iluminavam meu dia. Eu tinha doze anos e ela quatorze. Pensava tanto nela que quase precisei voltar para o período anterior. A atração já era paixão.
Escrevi meu primeiro poema de amor naquele ano. Ficou melhor do que qualquer outro que já li. Mas não tive coragem de enviar. Naquele dia, ela passou por mim e nem me cumprimentou. Mas não por ser convencida. Ela realmente não sabia quem eu era.
Passaram-se dois anos. Fiz minha mãe me transferir para o colégio dela. Para o clube, para a academia e para a igreja também. Sempre que ela chegava perto de mim, eu gelava. Mas a observava aonde quer que ela fosse. A paixão já era mania.
Eu a seguia a todos os lugares. Acabei descobrindo que ela fazia aulas de teatro e que seu sonho era ser atriz. Também descobri que ela tinha um namorado. Mas a isso eu não suportava assistir.
Ao mesmo tempo, descobri minha paixão por fotografias. Ia sempre à janela do quarto dela e tirava fotos. Em casa, em todas as madrugadas, eu a desenhava. Às vezes, ficava horas só olhando para ela. O cabelo loiro, os olhos azuis... o corpo perfeito. A mania já era amor.
No ano seguinte, aos meus quinze anos, eu já não saía com os colegas. Não conversava, não jogava xadrez e não desenhava nada que não fosse ela. Também não namorava outras garotas. Eu vivia em função dela. O amor já era obsessão.
Um pouco antes do aniversário de dezessete anos, descobri que o pai dela era alcoólatra e batia nela e em sua mãe. Foi o pior dia da minha vida. Senti muito ódio e quis matar o desgraçado. Cheguei a arranjar uma arma, mas seus pais logo se divorciaram.
Também tive um dos melhores momentos da minha vida nesse ano. Ela me pediu uma caneta emprestada e me chamou pelo nome. Ela sabia meu nome! Ela sabia quem eu era! Eu não conseguia acreditar.
O tempo foi passando e começou a ser incômodo para mim esse meu sentimento por ela. Eu precisava seguir em frente e viver minha vida. Cheguei a sair com algumas garotas. Todas parecidas com ela de alguma forma; um trejeito, um sorriso de lado, um cabelo repartido ao meio. Mas eu as usava e jogava fora quando elas faziam algo diferente e eu ficava decepcionado. Não era ela. Entrei em depressão. Anos e anos e ela não saía da minha cabeça. Aquilo me consumia. Mal conseguia dormir e, nas poucas vezes que conseguia, era com ela que eu sonhava. Abrir os olhos de manhã era pensar nela. As manhãs eram adaptação. As tardes, solidão. As noites, ansiedade. As madrugadas, insônia. Essa era minha rotina diária.
Enquanto eu me formava na faculdade de letras, ela realizava seu sonho, estrelando como protagonista de uma novela de televisão. Eu assistia todo dia. Faltava ao trabalho para vê-la e gravava todas as cenas em que ela aparecia. Eu era, com certeza, seu maior fã.
Ela tinha um namorado na novela, um ator conhecido. Doeu quando vi uma foto dos dois juntos numa revista. Lá dizia que eles não estavam juntos só na novela. Agüentei firme por meses. Então, ela ficou grávida.
Foi aí que decidi fazer uma declaração de amor. Entrei na casa dela escondido. Ela estava no quarto decorando as falas. Parei em frente à porta aberta. Tão linda... Fiquei só olhando.
Ela me viu e se assustou. Acalmei-a e disse:
- Lembra de mim?
- Vinicius? – Ela perguntou, surpresa.
Sorri de satisfação. Ela lembrava de mim. Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, peguei o papel dobrado no meu bolso e disse a ela:
"Te quero e te desejo desde
a primeira vez que te vi
Era fascinação, virou paixão,
E, agora, obsessão.
Não consegui dizer nada antes,
mas não por minha timidez
É porque não existem palavras
lindas ao ponto de expressar
tudo que sinto por você.
Então, esse é o fim.
Em que te digo o que qualquer pessoa
que sentisse um terço do que eu sinto diria:
Eu te amo."
Ela sorria, lisonjeada, e me olhava com ternura. Cheguei mais perto dela e passei a mão em seu cabelo. Ela ainda sorria sem dizer nada; ela era a perfeição. Ela me beijou suave no rosto, com facilidade, e, nesse momento, tive certeza do que fazer para viver de verdade.
Peguei a arma que havia comprado há anos e fiz a melhor coisa que já fiz em toda a minha vida. Naquela noite, matei Letícia.
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*Esse texto foi escrito em 2001. Fiz alterações meramente estéticas antes de postá-lo.
sexta-feira, 26 de junho de 2009
Palavra
Ônibus sentido Botafogo. Olho pro lado. Num repente, oi, quanto tempo, você ta diferente. Você também está. Desde aquele dia, não é? Faz quanto tempo mesmo, hein? Lembro de fotos, fatos, caras, bocas. Seu sorriso, lindo, largo, perfeito me engolindo. Aquele detalhe que você nunca contou pra mais ninguém. Nem pra sua namorada, nem praquele seu amigo. Guardei comigo.
Foi setembro. Nunca tinha te visto, mas me olhou diferente naquele setembro. Diferente de qualquer homem, qualquer novela, qualquer verso. E entrou no meu mundo até estar tão dentro de tudo que parecia ter estado sempre ali. Tão intrínseco quanto meu próprio cheiro.
Contei pra todo mundo, pintei seu rosto de azul na parede do meu quarto. Te emoldurei comigo, fui ao inferno e voltei de branco. Te amei, te amei tanto, mesmo, muito e mais. Da unha encravada ao cabelo desgrenhado.
E percebo que, em algum momento, me tornei importante pra você também. Ouvi suas músicas, li seus livros, beijei suas costas, cheguei primeiro. Passeei com suas dores. Levei seus sonhos pra dormir comigo. E hoje acordo, todo dia, dia a dia, sem seus dedos nas minhas frases. Você foi a palavra primeira, a idéia que deu origem às entrelinhas.
Foi setembro. Nunca tinha te visto, mas me olhou diferente naquele setembro. Diferente de qualquer homem, qualquer novela, qualquer verso. E entrou no meu mundo até estar tão dentro de tudo que parecia ter estado sempre ali. Tão intrínseco quanto meu próprio cheiro.
Contei pra todo mundo, pintei seu rosto de azul na parede do meu quarto. Te emoldurei comigo, fui ao inferno e voltei de branco. Te amei, te amei tanto, mesmo, muito e mais. Da unha encravada ao cabelo desgrenhado.
E percebo que, em algum momento, me tornei importante pra você também. Ouvi suas músicas, li seus livros, beijei suas costas, cheguei primeiro. Passeei com suas dores. Levei seus sonhos pra dormir comigo. E hoje acordo, todo dia, dia a dia, sem seus dedos nas minhas frases. Você foi a palavra primeira, a idéia que deu origem às entrelinhas.
quarta-feira, 17 de junho de 2009
Gil
Gil tinha a boca seca. Parecia estar sempre buscando ar pra respirar. Foi assim que desceu do ônibus na cidade pequena e, da mesma forma, lá passou seus noventa e seis dias. Falou muito sobre isso antes de poder voltar a morar na cidade grande. Que tinha passado exatamente noventa e seis dias lá. Só não disse por que. Acredito que alguns sabiam – pelo menos um devia saber –, mas eu não. Só soube depois, muitos meses depois. E mesmo assim não entendi direito. Gil tinha aquela eloqüência capaz de fazer tudo que dizia parecer muito mais interessante e verdadeiro do que realmente era. Mas tremia o tempo todo.
A vida já era ruim. A mudança pra cidade pequena, pra perto do pai, depois de tantos anos de distância, não foi um grande acontecimento, um problema instransponível em seu percurso. Era só mais um detalhe. A vida já era tão ruim, que essa mudança não apresentava qualquer diferencial. Gil se referiria a esse momento, mais tarde, como a cereja do bolo. E até que não foi tão ruim. Arranjou emprego e pôde posar de rapaz correto. Chegou a pensar nisso, que a mudança poderia ser uma oportunidade de começar do zero, de ser uma pessoa melhor. Antes da metade dos noventa e seis dias, já teria adquirido a fama que largou na cidade grande. Mas fez amigos por lá. Gil era daquelas pessoas que se tornam líder de grupo assim que entram no grupo. Fácil de gostar. Mas não conseguia dormir.
Gil fez dois amigos de verdade. Nenhum dos dois entendeu que isso nunca foi bom para eles e que, para Gil, meses depois, não fez nem diferença. Na época, tudo bem, ele mesmo me disse que esses dois eram muito importantes para ele, pois ele tinha dividido com eles um segredo que jamais dividira com ninguém. Lembro que sorri, mas depois não dei mais valor. Eles também não souberam dizer nada quanto ao paradeiro de Gil, então acredito que a importância deles em sua vida era tão pequena quanto a minha. No entanto, até hoje carregam parte dele – a ruim. E isso pode ser visto por aí, nos momentos fora de foco, nas noites perdidas. Gil era do tipo que influencia as pessoas. Mas tinha incontáveis cicatrizes nos braços.
Falei para ele, desde a primeira conversa, que ele era perito em se esquivar de fornecer informações pessoais. Gil era capaz de falar horas a fio sem soltar qualquer detalhe sobre si mesmo – sequer acidentalmente. O controle nunca lhe faltava, mas às vezes ele falava do inconsciente. Dizia-se cético, quase ateu, mas neurótico o bastante para se preocupar com o que os astros tinham a dizer sobre ele. E não gostou, quando resolveu ouvi-los. Os astros todos se alinharam e lhe falaram dos problemas. Gil encolheu. Na cadeira em que estava sentado e na vida que levava. Disse, naquele dia mesmo, que largaria tudo, tudo de ruim. Seria uma pessoa diferente. Tinha sonhos, na época. Falava sempre de recuperar o tempo perdido. Mas perdeu.
Foi mais ou menos nessa época em que discuti com ele. Gil não aceitava as coisas como elas são e assumiu uma postura desafiadora. Gritei com ele. Perguntei quantas multidões viviam dentro dele. E, para minha surpresa, foi nesse momento que ele se acalmou. Deu um meio sorriso e disse que se sentia exatamente assim, muito contraditório, como se multidões vivessem dentro dele. E me deixou conhecer mais uma dentre todas elas, pouco antes de seu nonagésimo sexto dia. Falou com o pai pela última vez e voltou pra cidade grande, aquela que lhe aguardava com papeladas, ternos e grades. Gil não enfrentou as grades, mas deve ter enfrentado o processo que levaria até elas. Ficou livre do pai, da cidade-refúgio, do grande problema iminente. Mas vendeu dois sonhos por dez reais de fumaça.
Gil passou mais um ano acessível a quem realmente se esforçasse para encontrá-lo. Menos o pai. Com o pai, não falou nem pra avisar que o irmão morreu. Ligou pra conhecidos. Pediu pra deixar recado. Depois disso, se perdeu em outros rostos, em outras calçadas, em outros futuros por aí. O passado ficou, mas só com quem sobrou, com aqueles que até hoje me perguntam se o tenho visto. Não o vejo, nunca o vi, não sei quem foi. Gil era dessas pessoas que passam quinze dentre noventa e seis dias em sua vida e fazem uma diferença que depois você não entende bem qual é, nem por que. Mas de dias, de meses inteiros que esqueci, ficaram os detalhes dele. Do agradável e persuasivo tom de voz às reveladoras unhas roídas.
A vida já era ruim. A mudança pra cidade pequena, pra perto do pai, depois de tantos anos de distância, não foi um grande acontecimento, um problema instransponível em seu percurso. Era só mais um detalhe. A vida já era tão ruim, que essa mudança não apresentava qualquer diferencial. Gil se referiria a esse momento, mais tarde, como a cereja do bolo. E até que não foi tão ruim. Arranjou emprego e pôde posar de rapaz correto. Chegou a pensar nisso, que a mudança poderia ser uma oportunidade de começar do zero, de ser uma pessoa melhor. Antes da metade dos noventa e seis dias, já teria adquirido a fama que largou na cidade grande. Mas fez amigos por lá. Gil era daquelas pessoas que se tornam líder de grupo assim que entram no grupo. Fácil de gostar. Mas não conseguia dormir.
Gil fez dois amigos de verdade. Nenhum dos dois entendeu que isso nunca foi bom para eles e que, para Gil, meses depois, não fez nem diferença. Na época, tudo bem, ele mesmo me disse que esses dois eram muito importantes para ele, pois ele tinha dividido com eles um segredo que jamais dividira com ninguém. Lembro que sorri, mas depois não dei mais valor. Eles também não souberam dizer nada quanto ao paradeiro de Gil, então acredito que a importância deles em sua vida era tão pequena quanto a minha. No entanto, até hoje carregam parte dele – a ruim. E isso pode ser visto por aí, nos momentos fora de foco, nas noites perdidas. Gil era do tipo que influencia as pessoas. Mas tinha incontáveis cicatrizes nos braços.
Falei para ele, desde a primeira conversa, que ele era perito em se esquivar de fornecer informações pessoais. Gil era capaz de falar horas a fio sem soltar qualquer detalhe sobre si mesmo – sequer acidentalmente. O controle nunca lhe faltava, mas às vezes ele falava do inconsciente. Dizia-se cético, quase ateu, mas neurótico o bastante para se preocupar com o que os astros tinham a dizer sobre ele. E não gostou, quando resolveu ouvi-los. Os astros todos se alinharam e lhe falaram dos problemas. Gil encolheu. Na cadeira em que estava sentado e na vida que levava. Disse, naquele dia mesmo, que largaria tudo, tudo de ruim. Seria uma pessoa diferente. Tinha sonhos, na época. Falava sempre de recuperar o tempo perdido. Mas perdeu.
Foi mais ou menos nessa época em que discuti com ele. Gil não aceitava as coisas como elas são e assumiu uma postura desafiadora. Gritei com ele. Perguntei quantas multidões viviam dentro dele. E, para minha surpresa, foi nesse momento que ele se acalmou. Deu um meio sorriso e disse que se sentia exatamente assim, muito contraditório, como se multidões vivessem dentro dele. E me deixou conhecer mais uma dentre todas elas, pouco antes de seu nonagésimo sexto dia. Falou com o pai pela última vez e voltou pra cidade grande, aquela que lhe aguardava com papeladas, ternos e grades. Gil não enfrentou as grades, mas deve ter enfrentado o processo que levaria até elas. Ficou livre do pai, da cidade-refúgio, do grande problema iminente. Mas vendeu dois sonhos por dez reais de fumaça.
Gil passou mais um ano acessível a quem realmente se esforçasse para encontrá-lo. Menos o pai. Com o pai, não falou nem pra avisar que o irmão morreu. Ligou pra conhecidos. Pediu pra deixar recado. Depois disso, se perdeu em outros rostos, em outras calçadas, em outros futuros por aí. O passado ficou, mas só com quem sobrou, com aqueles que até hoje me perguntam se o tenho visto. Não o vejo, nunca o vi, não sei quem foi. Gil era dessas pessoas que passam quinze dentre noventa e seis dias em sua vida e fazem uma diferença que depois você não entende bem qual é, nem por que. Mas de dias, de meses inteiros que esqueci, ficaram os detalhes dele. Do agradável e persuasivo tom de voz às reveladoras unhas roídas.
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