Estela tirou os sapatos. Chovia lá fora, mais forte que seus batimentos. Era dor nos punhos, na cabeça, no anteontem. Estava inquieta desde que perdeu para sempre aquele que lhe pôs pra dentro. Uma única mulher viveria, agora, na casa enorme, número 62. Secou os pés, mas ainda molhou o sofá. Esticou-se inteira, como um gato preguiçoso. Alongou os membros e roeu as unhas vermelhas. Estava cansada de mais um dia fora. O adeus veio a calhar, no entanto. Não diria mais que sim. Estela discordaria apenas de si mesma daqui pra frente.
Ligou a televisão. Chovia como se o céu sentisse raiva do chão. Estela bebeu café, esticou as pernas em direção à mesinha de centro, jogou a cabeça pra trás. O teto alto pedia pintura. Tudo agora era mais claro, dizia o que queria. A telha pedia por conserto, o azulejo sugeria a própria troca, a televisão deixava recado. Fechou os olhos e, por minutos inteiros, ouviu o barulho dos trovões. Cada detalhe podia ser absorvido, agora. Não tinha mais nada.
Subiu as escadas como uma melodia enquanto prendia os cabelos com um lápis. No quarto, desprendeu os cabelos novamente, e começou a lista. Faria as compras sozinha agora. Todos os afazeres agora eram seus. Uma mulher sozinha na enorme 62. Nunca mais teria a seu lado um homem. Pra ajudar, pra reclamar. Estela seria independente, na vida e na morte. As suas e só. Estela afofou os travesseiros e, pela primeira vez, achou grande demais sua cama. Mário, enquanto isso, dormia no cemitério do fim da rua desde o último sábado. Estava perto, mas não lá. Estela esticaria os braços e não teria mais que puxar o cobertor. Deitou-se e esparramou-se como mel. Inteira, até não caber mais na cama. Em cada extremidade, uma pontinha pra fora.
Tirou todas as roupas do armário. Separou-as por cor. Dobrou uma a uma, como quem sabe que tem todo o tempo do mundo. Ligou o chuveiro na potência mínima e deixou a banheira se encher de água. Teria deixado transbordar. E, por tempo indefinido, deixou-se murchar na água morna que ia e vinha, ia e vinha, ia e vinha. Pôs o roupão azul-marinho, seu preferido, mas não o dele. Toda escolha seria sua. Nunca mais por alguém. Arrastou os sofás. Derrubou a estante. Os ruídos abafados pelos trovões. Mudou todos os ângulos da sala. Com o controle remoto, deixou que o rádio tocasse o que bem entendesse. Da janela, o chão chovia de volta a raiva pro céu, que iluminava em rachaduras, ferido. Estela deixou o roupão cair e dançou com a chuva a noite inteira pela casa.
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