Sempre gostou de corredores. Daqueles brancos, vazios, longos e largos que se vê em prédios de consultórios médicos. Jurava lembrar-se claramente de passar por um, fascinada, indo embora do hospital no colo da mãe quando nasceu. De imediato, gostou da sensação de caminho à frente. Como se pudesse enxergar, de forma concreta, a vida que seguiria.
Conforme foi crescendo, viu que a graça dos corredores estava nas portas por todo lado; cada uma, uma possibilidade diferente. E, no final, só mais uma porta, aquela que lhe traria as recompensas, as melhores possibilidades. Achou que a vida era assim: um corredor de portas magníficas a sua espera.
Teve a mesma sensação em seu casamento, caminhando para o altar. Um longo corredor iluminado, levando-a para a última porta, o início das maravilhas. Não viu antes, mas foi ali. Aquele foi seu último corredor. Todas as portas, antes promissoras, jamais seriam abertas. Estava trancada numa sala quadrada, sem ângulos inesperados, sem surpresas, sem sobressaltos. Nunca pensou nisso antes, quando caminhava por corredores imaginando a vida fora deles. Não percebeu que a vida era ali. Que a escolha seria uma prisão. Nunca passou pela sua cabeça que, no mesmo lugar que estava o início, podia estar também o fim. Esqueceu que a porta que abriu teria que se fechar atrás dela.
E ficou presa, então, em seu final feliz. O conto de fadas congelado, personalizado, lhe encarando todas as manhãs. Rindo dela, a otimista, cheia de sonhos. Apontando a janela, fazendo-a ver que havia tanto mais pra conhecer. Tanto que ela não escolheu. Percebeu, da pior forma, que dar preferência a uma opção é necessariamente preterir as outras.
Espalhou-se por todo canto de cada cômodo quadrado da casa. Depois de muito pensar e sentir melancolia nostálgica em relação aos corredores, achou melhor continuar sendo otimista e explorar as opções de sua situação. Deixou um pedacinho em todo lugar que lhe pareceu possível. Deveria, assim, sentir-se em casa, acolhida, protegida. Isso deveria trazer-lhe a segurança que sentiu no colo da mãe, em seu primeiro corredor. O platô ao qual havia chegado não precisava ser ruim.
Em poucos anos, conseguiu despedaçar seu corpo inteiro, mantendo apenas os componentes da cabeça. Um dedo no sofá, o umbigo no chuveiro, os ombros na pia da cozinha, um joelho na máquina de lavar. Ela estava por toda parte, dominando o lugar. Qualquer um diria que, assim, não precisaria nunca mais de corredores. De fato, diziam que sua vida estava pronta. Estremecia à palavra "pronta". Mas aceitava e deixava um pedacinho do estômago em cima da estante, esperando que ganhasse vida própria. E, toda noite, ligava o som, apagava a luz e se deitava – imóvel, porém inquieta. Pensava em antigos corredores e em portas nunca abertas, enquanto cutucava o céu da boca, sentindo falta da própria língua.
Assinar:
Postar comentários (Atom)


Nenhum comentário:
Postar um comentário