Marília gostava de dormir com um pouco de Eduardo a seu lado. Sentia-se feliz ao deitar-se esbarrando em pequenas coisas que estivessem relacionadas a ele. Eram as últimas a ver antes de fechar os olhos e as primeiras depois de abri-los no dia seguinte.
Começou com um bilhete. Viu cair da mão dele no meio de uma aula. Conseguiu tirá-lo do chão e guardá-lo na bolsa antes que pudesse ser flagrada. Eduardo olhou em volta, não encontrou e deixou pra lá. Não deu importância ao sorriso eufórico de Marília, que guardou o bilhete debaixo de seu travesseiro, assim que chegou em casa. Marília gostou de ter algo dele tão próximo de si. Não o tirou de lá nem quando trocou a roupa de cama. Dobrado e amassado sob sua cabeça permaneceu o bilhete de Eduardo, todas as noites.
Depois foi o CD do Paulinho Moska. Eduardo tirou-o do discman e guardou-o na caixinha, dentro do bolso de fora da mochila. Marília aguardou ansiosamente um momento de distração para guardar consigo outro item de sua despretensiosa coleção. E conseguiu. Algo dele seria sempre dela. Nunca tinha ouvido nada desse tal de Paulinho Moska e achou melhor continuar sem ouvir – temia estragar ou alterar qualquer coisa em algo que só estava com ela por ser dele. E, assim, dormiu com o CD do lado e, para sua decepção, não foi fácil. Nas três primeiras noites, arranhou os braços nas arestas da caixinha. Mas Marília não se desestimulou. Em menos de duas semanas, seu cotovelo já se acomodava de acordo com a caixinha quando ia dormir. Teria sentido falta se não estivesse mais lá, de tão certo que ficou o contorno inventado por seu corpo.
Mais tarde, foi o conto xerocado do Machado, com palavras difíceis sublinhadas por ele. Dez folhas de papel grudadas por um clip, dobradas debaixo do CD do Paulinho Moska. Amassou-as um pouco nas primeiras noites. Depois o corpo se acostumou à novidade. Outro encaixe perfeito.
Com o tempo, Marília foi construindo Eduardo inteiro a partir de pequenas bugigangas a seu lado. A cada noite dormia com um pouco mais de seu amor. Não conseguia mais dormir sozinha agora que tinha alguém para deitar com ela, dizia para as amigas. E Eduardo crescia cada vez mais; tornara-se parte fixa de sua cama. Um chaveiro do Flamengo, uma foto 3x4, um pedaço de unha – jogou fora quando quebrou, distraiu-se enquanto pegava outra coisa, roeu e cuspiu fora. Dois fios de cabelo, um relógio de pulso, uma maçã intocada – não percebeu que estavam soltos na blusa, tirou para lavar as mãos, não comeu a tempo.
Marília foi se encolhendo mais e mais a cada novo pedaço de Eduardo. Até que um dia, ela própria não coube mais na cama. Passou a dormir no chão do quarto, coberta por uma camisa (seu maior troféu) que Eduardo experimentou numa loja e não comprou. No topo da pilha, um copo de mate e um guardanapo sujo.
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Marília escolheu engolir cada gota de Eduardo. Engordou-se dele;mas ainda assim não é vista. Será que um dia foi Marília? Ou será que sempre foi um vão esperando por Eduardos e Joões, e Rodrigos, e Marianos...
ResponderExcluirQuem nunca foi Marília? Talvez não nas mesmas proporções bizarras, mas...
ResponderExcluirE eu me pergunto se a maçã e a unha ficaram lá pra sempre, porque assim... É nojento.
Enfim, aí vai a crítica: AMEEEEEEEI, AMIGAAAN! ARRAZOU, NEM!
Mentira. Gosto muito do que você escreve e... Ah, esquece, não sei falar sério.
Poha muito bom, adorei!
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