quinta-feira, 9 de abril de 2009

Horário de Verão

Guardava o sol inteiro dentro da própria cabeça e, assim, às duas da tarde no horário de verão, irradiava azul quando a encontrou no local previamente combinado. Tanto verão que irritava os olhos, mas esquentava da forma certa. Ela, sozinha, emanava gelo suficiente para que aquilo funcionasse. Enquanto isso, no mundo, nenhuma notícia se oferecia para ela. Desde que parou de pedir, parou também de receber. Algo no equilíbrio de temperaturas do lado de cá acabou fazendo-a parar de pensar no mundo que perdeu. Descobriu, então, que ocupar o corpo ajuda a esvaziar a mente. Ou pelo menos, anestesia. O mundo já desgirava há mais de um inverno quando decidiu abrir mão. Atirar-se ao espaço foi mais uma urgência do que uma escolha. Atirar-se significava arcar com as conseqüências de um realismo indevido - o mundo não era a solução. Desse modo, a saída encontrada tornou-se até óbvia: transformaria a solução num desejo. Assim que abriu os braços para a grande perda, abriu o corpo inteiro para o vazio. Às duas da tarde no horário de verão, qualquer termômetro lhe mostraria que sua temperatura estava finalmente equilibrada. Do corpo pra fora, o mundo inteiro silenciava febril.

Nenhum comentário:

Postar um comentário