quarta-feira, 8 de abril de 2009

Felicidade

Chorou no enterro como quem chora a própria morte. Recebeu os pêsames da mãe, da sogra, dos amigos. Tudo como manda o figurino. Recebeu os pêsames até do tal colega de trabalho, que julgou melhor terminar ali o caso entre os dois, devido às circunstâncias. Clarissa nada disse, pois deveria estar extremamente abalada. Ficava bem de luto. Sempre acreditou que o preto ressaltava suas formas. Foi a primeira coisa que comprou, o vestido. Estava quase ansiosa para usá-lo quando Carlos finalmente morreu. Manteve a compostura. Ficava bem chorando. Um rosto que mais se exaltava quando em lágrimas do que quando enfeitado por um sorriso era convite para eterna infelicidade. Sempre pensou nisso. Infeliz, porém bonita. Mas agora, agora não. Ela seria para sempre bonita e seria feliz também. Ninguém saberia.

Voltou para casa acompanhada por uma das cunhadas, uma moça sorridente, otimista e divertida, que queria se certificar de que Clarissa ficaria bem. Era só o que faltava agora ter que se livrar dela também. Morre o marido, não morrem também os vínculos com a família dele? Era claro que precisaria repensar esses fatores. O testamento era direto. A casa era dela, bem como tudo que estava lá dentro. O resto estava dividido entre os membros da família, que eram muitos. Clarissa só se interessava mesmo pela coleção de quadros. Ficou ainda mais feliz quando olhou para Las Meninas na parede do corredor. Velásquez, Dali, Renoir. Eram todos dela agora. Sorriu. Feliz, porém bonita.

Começou a ser tomada por lembranças. Estava numa casa de gente rica, numa daquelas festas dadas por gente rica. Pegou-se olhando aquele mesmo quadro, pensativa, por muito tempo. Os olhares, eles chamavam. Quase distraíam, mas então, ali no meio, bem no fundo da imagem... era o quê? Um espelho? Um casal fantasma? Carlos aproximou-se:

- Gosta de Velásquez?

Mentiu que sim, mas não sabia do que estava falando. Era a primeira vez que via tantos quadros fora do museu. Não sabia ainda que se casaria com aquele homem baixo de olhos miúdos e que aprenderia tudo sobre os artistas.

- Sou Carlos. Como a senhorita se chama?

Odiou o nome, imediatamente. Odiava nomes com plural. Carlos, Marcos, Jonas. O que houve com Pedro, Márcio, Henrique? Ou até mesmo os –el: Rafael, Gabriel, Manuel. Mas não. Seu futuro marido havia de ter um nome ridículo como esse. Ria dela mesma. Estava destinada ao patético, à infelicidade. Compadeceu e sentiu pena de si. Um pouco de pena de Carlos também, o homem de futuro promissor que vem lhe trazer flores todas as tardes, dizia sua mãe.

Carlos não tinha exatamente um futuro promissor; tinha, na verdade, um presente seguro. Sua família era dona de banco em ascensão, daí vinha todo o dinheiro. Carlos não almejava o que gostaria de ser em sua vida adulta para manter toda a fortuna e fazer aparecer ainda mais. Carlos estava satisfeito. Nem ao menos pensava sobre isso. Considerava-se, aliás, homem de grande sorte, por ter nascido com a vida já pronta. Acreditava que era necessário ser muito abençoado por Deus para nascer numa família que já lhe apontava as diretrizes. Não precisaria nunca se preocupar com a escolha: as dúvidas, as incertezas. Estava tudo pronto ali. E mais, ainda seria capaz de dar uma vida confortável àquela que escolhesse como sua esposa. E escolheu Clarissa, que o desprezava justamente por isso. Achava-o burro. Como podia se achar um grande homem de negócios se tudo que fizera durante toda a vida fora levar adiante o que sua família havia construído? Não havia nada do que se orgulhar ali. Deveria ter vergonha.

A família sim interessava à Clarissa. Foi por isso que casou-se com Carlos. Por isso e porque os dois Cês ficavam bonitos no bordado das colchas, dos panos de mesa, dos convites para festas. Clarissa queria, na verdade, ter nascido naquela família. Ela sim teria feito devido proveito daquela vida boa. Não teria crescido patética como Carlos.

A noite de núpcias foi mais uma descoberta biológica do que uma experiência sensual. Não sabia que sangrava. Pegou nojinho. Não quis mais repetir aquilo, mas continuou empenhada em dar-lhe um herdeiro mesmo assim. Com o tempo, concluiu-se que não podia ter filhos, pois nunca os teve. Sequer uma gravidez mal conduzida. Nada. Carlos tornou-se o fracassado da família: havia escolhido uma mulher infértil para ser sua esposa. Clarissa não via isso como algo pessoal. Achava que, com outro homem, seria inteiramente capaz de ter filhos. O problema era Carlos, aquele homem baixinho de olhos miúdos, que nunca havia almejado nada a vida inteira. Não merecia ter um herdeiro. Ensinaria-lhe o quê?

Agüentou por mais tempo do que se achava capaz, ela declararia depois. Foram dezoito anos dormindo ao lado daquele homem patético. Acordando todos os dias, tomando juntos o café da manhã. Trocando gentilezas, conversando sobre amenidades, discutindo os quadros dos corredores e, a cada desacordo, ganhando um novo para sua coleção. Casei-me com os quadros, ela também diria depois. Carlos foi o defeitinho que deixei passar. E que agüentou por mais tempo do que se achava capaz.
O plano começou aos poucos. Foi por causa do problema do coração. Até então, juraria mais tarde, a idéia nem lhe havia ocorrido. Era um desejo, não um plano. Mas tudo mudou quando o médico receitou aquele remedinho. Carlos deveria tomá-lo todos os dias e ninguém melhor que sua esposa para assegurar-se disso, disse o doutor. E Clarissa assegurou-se das doses diárias que o mantinham vivendo e também da dose fatal que lhe serviu com bolo e suco. Ele até elogiou o sabor, veja só. Morreria sorrindo, o imbecil. Não desconfiou e Clarissa o desrespeitava ainda mais por isso.
O escândalo acabou acontecendo. A polícia descobriu o que havia matado Carlos.

Primeiro, tomou-se por distração: teria tomado sua dose diária, havia se esquecido e tomado outra vez. Logo descartaram essa possibilidade, pois seria necessário que Carlos esquecesse várias outras vezes. Depois, chegaram a levantar a hipótese de suicídio. Clarissa não pôde deixar de rir. Suicídio? E Carlos lá teria coragem de cometer suicídio? Até que o mistério foi desfeito. Suspeitaram da esposinha frágil. A cozinheira, aquela ingrata, confirmou. Clarissa foi presa, enfim. Pensava no casal fantasma no espelho de Velásquez. Não fez questão de negar, de esconder. Perguntaram-lhe o motivo. Disse que ficava bem de preto. Seria para sempre feliz.

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