sexta-feira, 5 de junho de 2009

Displicentes

Combinei o encontro da mesma forma que antes combinara qualquer outro. Ele aceitou como quem aceita um pedacinho de torta depois de já ter comido muito no almoço. Nossa história já havia terminado quase um ano antes, mas foi mantida em mim por subtextos e devaneios até aquela terça-feira. Acordei com a boca seca, sentindo falta de alguma coisa. Saí de casa achando que tinha esquecido as luzes acesas, mas, quando voltei, estavam todas apagadas. Só no fim do dia, pensei nele. Era ele que me faltava. Sem qualquer aviso prévio, nos vi separados naquele dia. E não sofri, mas não gostei.

Foi com derrota que me fiz encontrar com ele. Eu precisava olhar para meu rosto preferido e suspirar de alívio quando visse que ele ainda me amava. Era a noite da terça seguinte e o fim do mundo entre nós dois. Os olhos grandes vagos de cotidiano e meu silêncio estático de tédio. Foi derrota minha chamá-lo para esse encontro. Com pescoço inclinado pra cima, procurei respostas, significados, frases não-ditas, infinitas retóricas. Quis nos biografar e datar as pedras postas no caminho. Traçar uma história para entender o fim.

Ele parecia saber também. Não disse nada, mas me olhava como eu me sentia olhando para ele. Depois de tantas reviravoltas, tantas idas e vindas, encontrá-lo ali para uma despedida silenciosa parecia tão óbvio quanto sem sentido. Mas não consegui sorrir. Algo não parecia natural. As frases que antes eram hesitantes pelo desconhecido, agora eram reticentes pelo desgaste. Mas não houve um desastre. Ninguém traiu ninguém. Ninguém se magoou. E a falta do elemento bombástico era crucial. O equilíbrio perfeito entre o ter e o não ter passou a resultar de modo inverso: sem qualquer curso lógico de acontecimentos, o sentimento acabou. Por tanto tempo, tentei me congelar para ficar agarrada nesse sentimento. Mas fui displicente. Deixei a vida acontecer e não consegui evitar. O sentimento mudou.

Passei a noite inteira pendurada em um fio de expectativa. Procurava pistas em entrelinhas, alguma deixa, alguma vírgula mal colocada que me permitisse ainda enxergar o elo entre nós. Esperei por sinais distraídos de um grito abafado ou um sussurro de alegria; por uma declaração de amor camuflada ou uma ofensa torta e sutil de quem se importa com o comentário do outro. Torci por qualquer indício de nós entre mim e ele. E vi que aquilo que nunca consegui fazê-lo encontrar em mim estava mesmo para sempre perdido nele.

Terminamos a noite sem qualquer desenvolvimento interessante de assunto. Se fosse outra vez, se fosse como antes, teria sido apenas tedioso. Dessa vez, foi o fim não-dito. Me acompanhou até o ponto de ônibus, onde nos abraçamos desgostosos e não nos olhamos profundamente. Sequer sentimos dor. Cada um virou de costas e seguiu, sem emoção, um rumo diferente. Tão óbvio quanto sem sentido.

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