Gil tinha a boca seca. Parecia estar sempre buscando ar pra respirar. Foi assim que desceu do ônibus na cidade pequena e, da mesma forma, lá passou seus noventa e seis dias. Falou muito sobre isso antes de poder voltar a morar na cidade grande. Que tinha passado exatamente noventa e seis dias lá. Só não disse por que. Acredito que alguns sabiam – pelo menos um devia saber –, mas eu não. Só soube depois, muitos meses depois. E mesmo assim não entendi direito. Gil tinha aquela eloqüência capaz de fazer tudo que dizia parecer muito mais interessante e verdadeiro do que realmente era. Mas tremia o tempo todo.
A vida já era ruim. A mudança pra cidade pequena, pra perto do pai, depois de tantos anos de distância, não foi um grande acontecimento, um problema instransponível em seu percurso. Era só mais um detalhe. A vida já era tão ruim, que essa mudança não apresentava qualquer diferencial. Gil se referiria a esse momento, mais tarde, como a cereja do bolo. E até que não foi tão ruim. Arranjou emprego e pôde posar de rapaz correto. Chegou a pensar nisso, que a mudança poderia ser uma oportunidade de começar do zero, de ser uma pessoa melhor. Antes da metade dos noventa e seis dias, já teria adquirido a fama que largou na cidade grande. Mas fez amigos por lá. Gil era daquelas pessoas que se tornam líder de grupo assim que entram no grupo. Fácil de gostar. Mas não conseguia dormir.
Gil fez dois amigos de verdade. Nenhum dos dois entendeu que isso nunca foi bom para eles e que, para Gil, meses depois, não fez nem diferença. Na época, tudo bem, ele mesmo me disse que esses dois eram muito importantes para ele, pois ele tinha dividido com eles um segredo que jamais dividira com ninguém. Lembro que sorri, mas depois não dei mais valor. Eles também não souberam dizer nada quanto ao paradeiro de Gil, então acredito que a importância deles em sua vida era tão pequena quanto a minha. No entanto, até hoje carregam parte dele – a ruim. E isso pode ser visto por aí, nos momentos fora de foco, nas noites perdidas. Gil era do tipo que influencia as pessoas. Mas tinha incontáveis cicatrizes nos braços.
Falei para ele, desde a primeira conversa, que ele era perito em se esquivar de fornecer informações pessoais. Gil era capaz de falar horas a fio sem soltar qualquer detalhe sobre si mesmo – sequer acidentalmente. O controle nunca lhe faltava, mas às vezes ele falava do inconsciente. Dizia-se cético, quase ateu, mas neurótico o bastante para se preocupar com o que os astros tinham a dizer sobre ele. E não gostou, quando resolveu ouvi-los. Os astros todos se alinharam e lhe falaram dos problemas. Gil encolheu. Na cadeira em que estava sentado e na vida que levava. Disse, naquele dia mesmo, que largaria tudo, tudo de ruim. Seria uma pessoa diferente. Tinha sonhos, na época. Falava sempre de recuperar o tempo perdido. Mas perdeu.
Foi mais ou menos nessa época em que discuti com ele. Gil não aceitava as coisas como elas são e assumiu uma postura desafiadora. Gritei com ele. Perguntei quantas multidões viviam dentro dele. E, para minha surpresa, foi nesse momento que ele se acalmou. Deu um meio sorriso e disse que se sentia exatamente assim, muito contraditório, como se multidões vivessem dentro dele. E me deixou conhecer mais uma dentre todas elas, pouco antes de seu nonagésimo sexto dia. Falou com o pai pela última vez e voltou pra cidade grande, aquela que lhe aguardava com papeladas, ternos e grades. Gil não enfrentou as grades, mas deve ter enfrentado o processo que levaria até elas. Ficou livre do pai, da cidade-refúgio, do grande problema iminente. Mas vendeu dois sonhos por dez reais de fumaça.
Gil passou mais um ano acessível a quem realmente se esforçasse para encontrá-lo. Menos o pai. Com o pai, não falou nem pra avisar que o irmão morreu. Ligou pra conhecidos. Pediu pra deixar recado. Depois disso, se perdeu em outros rostos, em outras calçadas, em outros futuros por aí. O passado ficou, mas só com quem sobrou, com aqueles que até hoje me perguntam se o tenho visto. Não o vejo, nunca o vi, não sei quem foi. Gil era dessas pessoas que passam quinze dentre noventa e seis dias em sua vida e fazem uma diferença que depois você não entende bem qual é, nem por que. Mas de dias, de meses inteiros que esqueci, ficaram os detalhes dele. Do agradável e persuasivo tom de voz às reveladoras unhas roídas.
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