Mônica acordava todo dia às 5:50h. Andava até a cozinha quase sonâmbula, enchia dois copos e meio d'água, punha pra ferver e, mais três pás de pó de café, e voilà, Mônica bebia tudo que cabia na garrafa térmica. Às vezes comia pão 267 grãos, às vezes se enchia de pão sírio. Botava tudo pra dentro enchendo o café de adoçante. O filho não acordava antes das 7h e, sempre, todos os dias, às 7:10h, o Plus Vita e o Toddy do Juninho lhe aguardavam sobre a mesa. Mônica se despedia de Juninho no portão, a escola era logo ali embaixo. Mônica parou de levá-lo à escola assim que fez dezessete anos. Parece que os amiguinhos implicavam. Mônica não gostou. Tiveram que mandar a psicóloga ir conversar com ela, explicar por que era esquisito que ela ainda o acompanhasse até a escola.
Mônica tinha sua rotina muito bem organizada. A rotina era a chave de sua felicidade. Até o dia do caminhão. Mônica sentiu falta. Juninho demorava demais pra voltar da escola. Mônica mudou pra sempre no dia do caminhão. Todo mundo viu, todo mundo entendeu por que, mas ninguém soube no que ajudar. Mônica foi atrás de Juninho. Já estava três minutos atrasado e isso não era normal. Desceu a rua, parou na porta da escola. Juninho estava na porta, conversava com uma amiguinha. Não deu tempo de suspirar de alívio. No segundo seguinte, Mônica viu o caminhão, com o aviso "gás inflamável". Ninguém soube na hora como aconteceu, mas viu no jornal, no dia seguinte, que a menina morreu também.
A mãe da menina tentou se aproximar de Mônica. Era a única que entendia a perda. Mas Mônica não quis ouvir, estava ocupada procurando marcas de nascença, singularidades que identificassem a mancha preta como seu filho. A menina era Ana Karla, com K, 15 anos, a quem todos os amiguinhos se referiram como "namorada do Júnior" quando apareceram no jornal pra falar de como a tragédia havia afetado suas vidas, de como Karlinha e Júnior eram maravilhosos amigos, de como nunca os esqueceriam. Tinha até uns adolescentes machucados da explosão, mas ninguém morto, todos vivos, dando depoimento de como a morte de seus amigos mudava a vida de cada um deles. De como a morte muda tudo na vida. Mas a vida de ninguém mudou, só a de Mônica.
Juninho, lá do céu, mandava recados para Mônica todos os dias. Mônica não percebia que o feijão queimado era ele, que o relógio parado era ele, que o copo quebrado era ele. Mônica se achava desastrada e esquecida, agora que Juninho não estava mais na casa, lhe dando centro. Mônica, de noite, perdia cartas pra vizinha. Jogava buraco como quem joga bola, não pensava mais, fazia tudo num impulso irreconhecível. Juninho tentava ajudar, mas também estava gostando de passar uns momentos sozinhos com Ana Karla, 15. Passavam dia e noite transando em nuvens, a mãe de Ana Karla indo à igreja, Mônica errando a mão no adoçante, na medida d'água, esquecendo quantas pás de pó de café já tinham sido postas.
Mônica passou dias, não se sabe quantos, errando aqui e ali. É por isso que não conseguiram chutar se foi acidente ou não foi. Mas não foi, não, e Juninho teria contado pros outros se estivesse vivo quando perguntaram. Mônica percebeu que ainda tinha controle de si e do que acontecia em sua vida. Pegou uma garrafa de álcool, tacou no corpo todo, nos cabelos, na cara, entre os dedos. Certificou-se de que estava completamente coberta por álcool. Inflamável, riscou o fósforo sobre seu corpo e esvaiu em chamas no chão da cozinha. A vizinha apareceu no Fantástico, contando a história completa, dizendo como dói a perda de uma família maravilhosa, tão ativa e presente na vizinhança. A dor inteira de Mônica foi contada nos jornais, mas as palavras estavam todas trocadas, a sintaxe mal formada, os pontos mal colocados. Mônica não estava lá pra consertar, então, a história ficou mal contada mesmo. Uma desorganização que Mônica, viva, jamais permitiria.
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adoro finais assim, inesperados e 'não-felizes'.
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