Anamaria gostava da casca do pão. Toda vez que fazia misto quente, pegava garfo e faca, cortava as beiradas e deixava-as pra comer por último, porque era mais gostoso se a melhor parte ficasse pro final. Quando criança, observava os lanches das outras meninas da escola e via que seus sanduíches não tinham casca. Ouvia:
- Minha mãe tira pra mim.
E muitas vezes:
- Minha avó tira pra mim.
Mas Anamaria nunca foi de pedir pra tirarem as coisas, mesmo as que não gostava tanto. Gostava de tudo completo. Big Mac com tudo, até picles, nada de especial. Anamaria era dessas pessoas fáceis de agradar e que, talvez por isso, aproveitem mais a vida. Mas Anamaria iria morrer e não sabia disso, então vivia como quem não fosse.
Anamaria gostava de andar de bicicleta. Sempre oferecia à mãe para ir à padaria para ela. Inventava caminhos para passar mais tempo andando por aí na bicicleta. Já era conhecida pelo bairro todo. A mãe sempre reclamava: começava a fazer o café quando Anamaria saía pra comprar o pão, mas quando Anamaria voltava, já tinha até perdido a vontade de comer ou bebido café sem pão mesmo.
Outra coisa que Anamaria gostava era de contos de fada. Já se achava velha para gostar dessas coisas, mas não conseguia esconder sua paixão. Tinha os livros com as histórias, tinha os filmes da Disney, sempre queria ir às peças e guardava as bonecas das princesas – nunca viu graça em brincar de Barbie e, até por isso, suas princesas estavam conservadíssimas. Era apaixonada pela história da Cinderela, que vivia uma vida horrível, até ser resgatada pelo príncipe. Anamaria não teve uma vida horrível, mas apaixonada por contos de fada que era, sonhava com um Príncipe Encantado que a resgataria mesmo assim.
A avó, cética, às vezes comentava com Anamaria:
- Mas você sabe que eles não foram felizes pra sempre, né? A história simplesmente acaba no momento mais feliz e a gente não fica sabendo o que houve depois daquilo. Mas eles certamente não foram felizes pra sempre.
A mãe, no início, repreendia, dizia que isso não era coisa pra se dizer pra uma criança. Mas Anamaria não era mais nenhuma criança e, com o tempo, a mãe acabou achando que era melhor que ela descobrisse logo como são as coisas de verdade, fora dos contos de fada.
Anamaria começou a desenhar por causa dos contos de fada. Desenhava os castelos, as princesas, os príncipes, os encontros, os céus, pequenos detalhes que observava ao longo das histórias. Descobriu a pintura assim. Não sabia que iria morrer e dizia para todos que, quando crescesse, seria pintora.
Anamaria tinha planos. Gostava da casca do pão, de andar de bicicleta, sonhava encontrar o Príncipe Encantado e ser pintora. E não sabia que iria morrer.
Anamaria só não gostava do nome; achava feio que fosse tudo junto. Para ela e todos, fazia muito mais sentido se seu nome fosse Ana Maria, separado, com maiúsculas, evidenciando dois nomes diferentes. Anamariatudojunto tornava a coisa toda um pouco bagunçada, ela achava. Preferia ser chamada apenas de Ana, mas ninguém na família a chamava assim.
Anamaria nunca teria mais que seus já feitos quatorze anos, aquela idade em que os adolescentes se acham muito mais adolescentes do que são. E foi em seu aniversário que passou a odiar de verdade ter recebido aquele nome. A prima, um ano mais velha, apareceu na festa com o namorado e apresentou a ela:
- Esse é o Diego, essa é a minha prima Anamaria.
Diego riu:
- Igual ao bolinho!
Os adolescentes muito adolescentes que um dia seriam adultos riram em volta e repetiram a piada uns pros outros. A prima notou o aborrecimento de Anamaria e tentou apaziguar:
- Pára, gente, deixa ela!
Mas um menino muito adolescente completou:
- É, gente. Coitada da Bolinho!
Daquele dia em diante, Anamaria passou a se chamar Bolinho para qualquer aluno da escola. A família achou divertida a brincadeira e também adotou o apelido. Não entendiam que tanto ela se irritava com ele. E também não sabiam que ela iria morrer.
Desde que passou a ser conhecida como Bolinho, Anamaria começou a dar mais ouvidos para a avó e sua falta de romantismo. Estava convencida de que jamais viveria uma bonita história de amor, como a de Cinderela. Nenhuma menina que fosse conhecida como Bolinho estaria destinada a viver uma história digna de conto de fadas. Anamaria se tornou uma adolescente reclusa e desistiu de esperar o Príncipe Encantado.
A exatos 4,7km da casa de Anamaria, vive Fábio, um garoto solitário em seus quinze anos e muito menos adolescente do que costumam ser os garotos nessa idade. Dorme todo dia coberto por um edredom, não importa o calor que faça. Está sempre com frio nas pernas e os outros cobertores se mexem demais enquanto ele dorme. A mãe diz que Fábio só pode ser doente pra dormir de edredom no calor. Mas o que pode fazer? Fábio se sente melhor assim.
Fábio gosta de chicabom derretido. É seu prazer mais secreto. Passa no mini-mercado quando volta pra casa da escola e compra dois chicabons. Em casa, pega os dois, põe dentro de um copo, tira do palito com a ajuda de uma colher e deixa derreter. Depois bebe. Fábio, por isso, não come sorvete na rua, mas nunca contou a ninguém que é esse o motivo. Fábio ainda não conhece Anamaria e não sabe que ela faz a mesma coisa, só que com picolé de brigadeiro, não chicabom.
Fábio leu toda a coleção de Harry Potter e às vezes imagina que vive num mundo de bruxos e magias e tudo dando certo no final. Está juntando dinheiro que ganha de parentes no aniversário e no Natal para comprar os livros em inglês, para treinar. Começou o curso aos dez anos, mas só foi se interessar em aprender a língua há um ano, quando descobriu os Beatles e quis entender o que eles cantavam. A professora do cursinho incentivou e agora ele quer reler todos os livros da série do Harry Potter.
Assim como Anamaria, Fábio desenha – mas só desenha, não pinta. Escreve histórias em quadrinho. Adora super-heróis, poderes, mutações; queria ter criado X-Men. Sonha em fazer algo relacionado a isso quando crescer, mas ainda não sabe exatamente o quê. A mãe incentiva esses interesses de Fábio e está até pensando em matriculá-lo em uma escola de desenho. O pai é contra muito investimento nessa área; acha que não deve ser nada além de um passa-tempo, pois quer que Fábio siga os passos dele, que um dia seja pastor da igreja também. Mas Fábio não pensa muito em coisas de igreja. Só vê magia em Harry Potter.
Fábio não é como os outros meninos da idade dele e sabe disso. Tem as maiores notas da turma e prefere ficar em casa jogando no computador a ir às festas do pessoal da escola.
Fábio se interessa por meninas, mas dificilmente consegue atrair o interesse delas. Houve uma menina, uma vez, há pouco mais de dois anos. Fábio se apaixonou quando ela apareceu na escola e, para sua surpresa, a menina retribuiu a atenção. Também lia Harry Potter, o que rendeu longas conversas por MSN e, por fim, uma ida ao cinema. Fábio não conseguiu beijá-la. Teve medo de fazer tudo errado. A menina, no entanto, tomou iniciativa por ele e acabou que Fábio não era ruim nisso. Ainda assim, os dois não tiveram mais encontros. A menina se enturmou com outro grupo na escola e pouco falou com Fábio depois disso. Fábio entendeu o lado dela.
Fábio é o mais novo de seis filhos. Os pais, depois de cinco, não souberam mais que nome usar e acabaram por escolher o do pai. De modo que Fábio se chama Fábio dos Santos Júnior. Isso não era problema até dois anos antes, quando um professor novo achou bom chamar o nome completo de cada um dos alunos enquanto fazia a chamada. Quando chegou ao nome dele, deu um risinho:
- Fábio dos Santos Júnior. Ih. Fábio Júnior.
Fábio não sorriu. O professor, sem perceber o desconforto de seu aluno, foi além:
- Você vai cantar pra gente, Fábio Júnior?
Fábio respondeu com um sorriso forçado e o professor seguiu com a chamada. O professor não fez por mal, mas os colegas de turma não perdoaram: passaram a chamá-lo de Fábio Júnior. A referência ao cantor não era um elogio e Fábio sabia disso. Dali em diante, passou a odiar o próprio nome. Mas até hoje é chamado de Fábio Júnior na escola. Em casa, Fábio é Juninho. E ninguém sabe da piada, tampouco entenderia por que é um problema.
Fábio ficou mais tímido desde o incidente e está convencido de que é por isso que não tem namorada ou ao menos sai com meninas, como os outros meninos fazem. Fábio acredita que só conseguirá ser levado a sério por uma menina quando sair da escola e ninguém mais souber seu sobrenome. Não acha que uma menina normal se interessará por alguém que é constantemente ridicularizado pelos colegas de turma.
Anamaria e Fábio se conheceram na esquina da casa de Fábio. Anamaria fazia um de seus caminhos estendidos de volta da padaria na bicicleta e, distraída, não percebeu que Fábio estava passando. Fábio, também distraído, caminhava para casa com dois chicabons na mão e guardava o troco no bolso. Foi atropelado pela bicicleta de Anamaria.
Fábio caiu mais de susto que de impacto e, ao se apoiar no chão, se desestabilizou e quebrou o braço. O dono do mini-mercado, que viu Fábio bebê, se apressou para levá-lo ao hospital. Anamaria, em estado de choque, disse que ia também e o moço, sem tempo para pensar nos problemas que poderia ter em levar uma menina de quatorze anos pra qualquer lugar que fosse sem avisar aos pais, não se opôs. Fábio sentia muita dor, mas mesmo assim, pôde observar Anamaria e a achou muito bonita. Bem mais bonita que a menina que beijou dois anos atrás. Ao mesmo tempo, Anamaria percebeu, a caminho do hospital, que seu interesse por Fábio ia muito além de ver seu braço no lugar. Até pensou na Cinderela. Fábio, mesmo sem saber disso, pensou ali, de forma instantânea, que gostaria que Anamaria estivesse para sempre em sua vida. Ele também não sabia que ela iria morrer.
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O resto da história foi escrito por três outras pessoas maravilhosas e pode ser conferido em Livreto de Retalhos, livreto 1. ;)
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